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Pensando caminhos para uma articulação política em psicologia Maria Célia Detoni *
Para que este texto não fique muito datado ou por puro entusiasmo tomo auxílio de um brilhante ficcionista da subjetividade que diz, "pensando bem, não a um princípio para as coisas e para as pessoas, tudo o que um dia começou tinha começado antes, a história desta folha de papel, tomemos o exemplo mais próximo das mãos, para ser verdadeira e completa, teria de ir remontando até os princípios do mundo, de propósito se usou o plural em vez do singular, e ainda assim duvidemos, que esses princípios princípios não foram, somente pontos de passagem, rampas de escorregamento, pobre cabeça, a nossa, sujeita a tais puxões, admirável cabeça, apesar de tudo,que por todas as razões é capaz de enlouquecer, menos por essa." (SARAMANGO, 1999, 47). O título é convocante na medida em que propõe pensar sobre questões históricas na psicologia e será essa minha intenção, fazer um certo resgate histórico, um pouco do como penso a história. Não porque eu pense que há um começo como já disse através de Saramago ou uma causalidade linear, mas a história como momentos disruptivos. Não se tratam de dados autobiográficos em si, mas noções dos deslocamentos que a psicologia foi fazendo e da velocidade de tais movimentos. Então, a idéia de que seríamos uma categoria ou classe nos remete imediatamente a uma discussão que esteve muito presente na década de 80 com a seguinte dialética: "somos ou não somos trabalhadores?" Se somos como podemos nos fazer representar? Era uma questão política: diretas já, participação popular, psicologia social, psicologia marxista, movimento antimanicomial, rompimentos de muros, mobilizações nacionais, greves. Foi na primeira parte desta década que fiz Universidade. Eram poucos os cursos de psicologia no Estado. O trabalho era pouco conhecido e ainda mais enigmático no interior. Entrei na terceira turma de uma Universidade do interior, que, contava com nove psicólogos sendo que quatro deles há pouco chegados vinham em função do próprio curso. Ressalto que falamos de menos de 20 anos e a realidades está de tal forma que é quase irreconhecível o discurso da época para boa parte de nós. A questão política chegava via clandestina ao saber psi. Era no restaurante universitário, no bar, no bosque, no Diretório Central de Estudantes, eram os primeiros possíveis retomados no movimento estudantil após os anos de ditadura. Entre hormônios adolescentes e saberes embolorados (aqueles que inseridos na lógica da repetição trazem em si um repasse moral: tudo foi assim, e assim será. Repassam a certeza, a verdade, e a fidelidade histórica, conforme Nietzsche) surgiam ares de revolução. Passeatas, greves, reuniões de estudo de Marx, Foucault, Engels, anarquistas. Deleuze parece definir bem estes momentos quando diz que o que conta é que estamos no início de alguma coisa, e portanto não cabe temer ou esperar, mas buscar novas armas. Este conhecimento paralelo ou ainda, estas novas armas iam fazendo oposição à psicologia de laboratório, aos clichês da clínica adaptativa, dos saberes hierárquicos, das avalanches de testes. Foi assim que descobri o psicólogo trabalhador e a relação entre psicologia e política: numa práxis. Fui percebendo que esta práxis juntava a psicologia e a política. Foucault (1993, 69,70) falava dos poderes, do intelectual militante, dizia claramente numa conversa com Deleuze: "A prática é um conjunto de revezamentos de uma teoria a outra e a teoria um revezamento de uma prática a outra. Nenhuma teoria pode se desenvolver sem encontrar uma espécie de muro e é preciso a prática para atravessar o muro." Neste sentido a psicologia passou a ser vivida como militância e por isso minha satisfação de falar das questões que este tema suscitou. Questões que tomo no conjunto dos agenciamentos que foram produzindo as psicologias que atualmente conhecemos. Embora possa parecer exagero repontuo: a história não é uma linearidade sucessiva de fatos, mas as diferentes configurações e territórios que vão se dando tendo em vista as diferentes forças em ação num tempo dado, como por exemplo, as forças econômicas, familiares, culturais, amorosas etc, tanto macro quanto micro. Uma primeira idéia é o que vou chamar da queda do muro da normalidade ou a politização do psicólogo. Psicólogo, é psicóloga, profissão feminina diferente da tradição americana da métrica dos testes. Profissão de mulheres para mulheres, visto que os homens que habitavam aquele campus ainda eram "repletos de lágrimas escondidas para acreditarem que eram homens." (FERNANDEZ, 1994,11). Eu vi, desde que cheguei naquele clima "campus" uma efervescência, algo em ebulição que recebia o nome de política estudantil. Um contraste entre a linha de hegemonização e uma certa força da "função positiva da ignorância". (Fernandez,1994). Da psicologia, se destacavam as moças de longos e rodados vestidos, chinelos ou sandálias e bolsas de couro cru, ou crochê, cabelos longos e um ar de boas-vindas. Estas eram estranhas figuras entre moças bem educadas. Ao falar de campus refiro-me a geografia mas também ao que Deleuze e Guattari (1995,33) denominam platô, designando "algo muito especial: uma região contínua de intensidades, vibrando sobre ela mesma, e que se desenvolve evitando toda orientação sobre um ponto ou finalidade". Ou seja, é o campo das forças subjetivantes que nas suas intensidades contemplam o múltiplo porque não há instância enunciativa, causa primeira, mas aglomeração de traços de intensidades que vão compondo contornos subjetivos." Era isso que eu descobria, a multiplicidade pela estética. Fascinada mergulhei nesta sopa de letrinhas, sopa de modos de existir e de construir referências para o trabalho psi e a vida. A estética aqui definia diferentes "campus", aliás eram muitos "campus" ou platôs, que se podiam fazer ver e sentir todos os dias. Uma outra questão pode ser assim colocada: eu, você e nossa certeza. Os(as) professoras, com sua exceções , todas bem comportadamente trajadas de sua teorias e suas gordas saúdes (em sentido metafórico) faziam grande esforço para tornar este um único campus. Davam vazão a uma linha dura de homogeneização, campo ou platô da homogeneidade. Uma certa moda prêt a porter era ofertada para consumo de todos e como recompensa o reconhecimento de fazer parte desta nova categoria em ascensão que, abstratamente, não era trabalhadora, ou seja, temas como trabalho, dinheiro, competição ficavam mascarados pela garantia de um futuro de normalidade. Daí a importância da estética: a roupa, como a postura, os gestos, a fala como campos identificatórios da normalidade garantida. A estética, então, serve para que se coloque desta micropolítica de homogeneização. Caber no taier é como caber no Freud, no Makinon, na sagrada família, na sagrada ordem social. Entendi então que era na estética que algumas colegas afirmavam a multiplicidade, a heterogeneidade. Não tive dúvidas de que lado ficaria. Sim porque fazia parte deste tipo de pensamento acreditar que existiam dois lados e era preciso estar em algum deles- a margem era sinônimo de marginalidade. Foi assim que a política saia do DCE para a vida e para uma prática em psicologia fundamentalmente ética e política. Rolnik, (1993) deixa muito claro esta idéia de um outro paradigma: ético-estético-político. Ela escreve: ético quando da escuta das diferenças que se fazem em nós e portanto afirmamos o devir a partir destas diferenças; estético porque não parte de um campo já dado, mas da criação que encarna as marcas do pensamento, do viver; político porque se dá na luta contra as forças que em nós obstruem as nascentes do devir. Encontram-se então sempre em formação novas psicologias e aí vai outra marca desta cartografia: a descoberta de que não há imunidade. Estas experiências se davam com conflitos. Se polarizavam na época entre esquerda e direita, corretos e avançados, caretas e vanguarda, etc... e foi bastante penoso reconhecer nesta lógica binária uma linha subjetivante fascista que não escolhe lados. O fascismo é uma potência, uma força que nos habita, que rechaça o desconforto que a diferença causa em mim, no grupo, na família etc... Ele não é somente totalitário ( entre raças, gêneros) ele habita o campo das intensidades, não é equivalente ao lugar externo de um corpo como etnia, partido político, crença. Se era quase evidente que a verdade não era preta porte, também correspondia outra posição, de que se não estava ali devia estar em algum outro canto. Isto criou outra espécie de fascismo: clínica = direita; comunitária - social = esquerda. O contraponto a este fascismo criou um rico movimento: psicologias grupais e institucionais, terapias corporais, gestalt, psicodrama. Não estou aqui discutindo as peculiaridades de cada referencial, mas de um acontecimento. Um momento em que somos forçados, constrangidos a coexistir com múltiplas vozes psis. É o mapeamento do psicólogo cidadão, é o reconhecimento da diversidade teórico prática. Reconhecimento que traz o caos: o que é psicologia, quem somos, se não tem dois lados como vou saber onde estou. E, o caos, foi tomado, em boa parte dos momentos, como uma desordem mortífera e estéril. O caos é uma verdadeira sopa de letrinhas, que pode ser vivida como a morte da existência porque aqui o perigo é confundir a morte de alguns referenciais, das partes com a morte do todo. Isto deve ser bem fácil de entender pois é o mecanismo nosso de cada dia, sofrer os fins como mortes absolutas. Se não é morte absoluta são como passagens. O sofrimento das passagens. Deste turbilhão do caos se engendram milhares de organizações estudantis, profissionais, congressos, encontros, greves estudantis, múltiplas vozes, o caos. "A vida é tão bela que chega a dar medo; não o medo que paralisa e gela, estátua súbita, mas; esse medo fascinante e tremente de curiosidade que faz o jovem felino seguir pra frente farejando o vento ao sair, pela primeira vez da gruta; medo que ofusca: luz." Assim diz Mário Quintana de forma bem mais bonita o que tento definir para nós. O caos não é um fato, é uma força em potência, está sempre aí podendo engendrar algo de novo. O caos é um acontecimento gerador, um campo de possibilidades, uma fecundidade em potência. Não é bom, nem mau em si. Ele tem também toda força de nos fazer fixar, aderir, colar no conhecido seja pelo pavor de nos sentirmos sem formas, seja pela força da dureza do fascismo. Habitar o caos é sempre um rito de passagem. Ele não fica atrás, não é passado, tipo vivemos o caos e agora tudo ok. Depois da tempestade vem mais tempestade. Habitar o caos é uma certa possibilidade de subjetivação, que fica muito clara na clínica, pois estamos (paciente e terapeuta) o tempo todo sendo remetidos à sopa de letrinhas. Mas se está a potência do novo também está a potência do restabelecimento do que já era, ou de um novo fixante, um novo em forma de parafuso. O caos traz tantas ofertas que ameaçam a existência. Não se trata do vazio, mas do excedente, daquilo que se oferece em abundância. A esta delicada existência chamo de "situação em navalha", dos riscos de habitar, de receber a sopa de letrinhas: risco de dissolução ou risco de fixação. Ainda falando através e Saramago: (1999,138,139) "esta curiosa situação, repare-se, apenas, repete, com as diferenças que sempre distinguem as situações que se repetem. Os motivos, de que adiantaria falar de motivos, às vezes basta um só, outras vezes nem juntando todos, se as vidas de cada um de vocês não vos ensinaram isto, coitados, e digo vidas, não vida, porque temos várias, felizmente vão-se matando umas às outras, senão não poderíamos viver. Queria pensar, mas não o balancé do costume, terei feito bem, terei feito mal, o feito feito está, queria era pensar na vida, para que serve, para que servi eu nela, sim, cheguei a uma conclusão e julgo que não há outra, não sei como a vida é." Risco de aderir de pensar que ah, agora entendi tudo, e sermos os novos cavaleiros, encarnados numa missão e assim não migrar e ocupar o lugar do sedentário. Sedentário ou peregrino, o primeiro imóvel, o segundo um ato de conversão e fé, ambos, formas de não se criarem linhas novas de viver o acontecimento. Reproduzir em miniatura as afetações da linha dura (fascista): da família para a comunidade, do casamento ao regime de trocas, ou as novas mães que ninam eternamente seus filhos. Em lugar do binário, mil maniazinhas ritualizadas, sobre seu caso, minha escolha, minha subjetividade, a tirania de um eu gordo e guloso. Outro risco é o de recodificar tudo novamente, definir, nomear, classificar, fazer um novo CID, discutir infinitamente, entender, tornar consciente, conter o desespero que sentimos diante de existir fora da binaridade, fora do codificado, ser baixo no mundo dos altos, ser feio no mundo dos bonitos, ser satisfeito no mundo dos insatisfeitos, e assim por diante. Recodificar criando o grupo dos baixos, dos feios, novos estatutos, outras identidades. Fixar o como devo ser, estar sempre perguntando à história, ao social: como devo ser? Há ainda o risco de que engajados nos fluxos do caos, ao invés de nos conectar com forças de consistência alimentemos o que Deleuze e Guattari (1995,112) chamam de paixão de abolição ou de destruição que faz da singularização uma força mortal, um suicídio contínuo, como por exemplo a adição à droga, a comida, ao consumo, ao jogo, ao sexo. Habitar o fluxo mutante e desenhar contornos flexíveis é a "situação em navalha", viver perigosamente, levar a sério o que diz o poeta, que viver não é preciso, não tem precisão ou como dizia Diadorim em Grande Sertão Veredas, viver é muito perigoso. Viver na borda do que se fixa e endurece e do que escapa sempre a qualquer codificação. Habitar processos em devir. Extrair maneiras não dominantes de existir, não abusar dos clichês, enfrentar o medo do incontrolável, discernir o caos fecundo do caos capitalista que também tem uma oferta farta e veloz, que nos atravessa e desterritorializa a todo momento. Traçar territórios, constituir referências que contenham respiradouros por onde a vida possa pulsar. É acolher o estranhamento engendrado nos encontros que fazemos ao mesmo tempo em que possamos ter algum resto de solo, de terra fixa para poder pensar, poder articular o movimento. Não se trata de embarcar nas forças subjetivantes sem critérios, mas de que critérios adotar, como constituí-los de forma que não obstruam a mudança. Há então um limiar de desterritorialização possível que é a meu ver esta a escuta por excelência da psicologia, da política, da clínica, porque desta forma não haveria escuta do psicólogo que não fosse clínica social. Se a educação tem como tarefa ensinar a lidar com a mudança a clínica está comprometida com este limiar sem embarcar em linhas homogeneizantes mas também não em linhas de abolição. Então território sempre se fazendo, sempre tendo o caos como potência, critérios em estado de acolhimento, é esta arte das passagens, que nada tem a ver com estágios ou fases. Estamos diante de outros tempos e os psicólogos: Acredito que se até aqui tenha conseguido trazer vocês mais ou menos na escuta do que fui falando, concordando ou não, fique evidente que não é possível representar alguém sejam grupos, pessoas, instituições a não ser no campo formal da questão, como por exemplo, no voto. Mas, e o que fazemos com toda essa outra dimensão que não pede licença. Qualquer sindicato ou entidade de representação que esteja trabalhando sério está hoje muito preocupada com esta questão. Existem categorias em extinção, novas surgindo e durando tão pouco tempo que às vezes sequer as percebemos como nas fábricas onde a automação foge ao nosso olhar. O desemprego que faz mudanças nas relações, nas famílias e que não temos muita idéia do que se passa quando valores que eram tido como universais estão regionalizados e datados e ao mesmo tempo convivem com a globalização. Outros tempos, outras velocidades, múltiplos vendidos em kits cinema + bar + restaurante + super + loja + status + segurança + identidade, tudo à nossa disposição num shopping perto de sua casa. Então vamos falar sério, que negócio é esse de ficar correndo atrás do ego, da identidade, do papel, do lugar do psicólogo. A ordem é que nos façamos diferentes, que possamos estudar coisas diferentes, abrir e não fechar, que não nos fascinemos com a vida cor-de-rosa dos possíveis normais e necessários. Que nossa representatividade seja realmente um ato político, ou seja ponha em evidência as armadilhas de ser bom cidadão. E, hoje, que cartografias poderíamos fazer mais com os avanços tecnológicos, com as pílulas da felicidade, com a psicologia espremida entre psiquiatrias, psicanálises. Já falamos de dinheiro, trabalho, gênero e psicologia? Deixo muitas questões em aberto pois meu intuito foi na verdade propor uma via de pensar a questão.
Bibliografia: DELEUZE, G. & GUATTARI, F.(1995) Mil Platôs- Capitalismo e Esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34 FERNANDEZ, Alicia. (1994). A Mulher Escondida na Professora. Porto Alegre: Artes Médicas. FOUCAULT, Michel. (1993). Microfísica do Poder. Rio de Janeiro:Graal ROLNIK, Suely. (1993). Pensamento,corpo e devir. Uma perspectiva ético/estético/política no trabalho acadêmico. Cadernos de Subjetividade, 1,n° 2, 241-251. SARAMAGO, José. (1999). A Jangada de Pedra. São Paulo: Companhia das Letras. * Psicóloga, Psicoterapeuta, Mestre em Educação, Membro da Equipe da Oficina Psi: clínica, ensino e intervenções sócio-grupais de Porto Alegre. |
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