Loucura e política em Santos
 
Quando Lula chegou à Praça Mauá, ali, frente ao Paço Municipal de Santos, foi logo entrevistado pelos loucutores da ressuscitada Radio TAM TAM. Depois conversou com usuários e militantes da luta antimanicomial, observou a mostra de fotografias do Hospital Anchieta...
Em 1989, o Anchieta era um hospício privado, uma espécie de campo de concentração no qual a Administração Democrática Popular realizou intervenção no dia 3 de maio daquele ano. Assim foi iniciada a construção de um programa de saúde mental municipal, baseado em núcleos territoriais, que fez de Santos a primeira cidade brasileira sem manicômios. Exemplo, para a Organização Mundial de Saúde, da Reforma Psiquiátrica.
No dia 3 de maio de 1999 comemorou-se 10 anos da gloriosa intervenção que um promotor raivoso chamou de "malfadada". O atual governo do PPB anunciou, antes que fosse tornada pública, uma ação que pede, entre outras coisas, a cassação dos direitos políticos de Telma de Souza, David Capistrano (ex. prefeitos), Cláudio Maierovitch (ex. secretário de saúde) e Roberto Tykanori (ex coordenador do Programa de Saúde Mental).
A investida visa dar um golpe certeiro no que foi construído durante 8 anos de governo petista. Mas, longe de aprofundar o silêncio da militância, aguçou sua ardência e produziu um clima raro, novo: as reuniões que antes eram de 5 ou 10 pessoas começaram a contar com 50 ou 100. Os militantes do PT que, machucados pela luta intestina, não conseguiam se olhar nos olhos, trabalharam juntos, conversaram, se tocaram.
Quando Lula chegou ao hall da Faculdade onde acorreu o ato, o grupo de teatro Orgone estava na última cena de "Na sala de espera do Dr. Freud", depois teve certa dificuldade para entrar no auditório. Muitos ficaram de fora.
Julinho Bittencourt, sentou no centro da mesa, ao lado de Fausto Figueira, presidente do PT santista, tocou ao violão "Dizem que eu sou louco" e os 700 que ali estávam apinhados iniciavam o ato com todo brio. Depois David Capistrano deu o tom e as boas vindas as delegações de Minas Gerais, Santo André, São Paulo, Campinas, Baixada Santista, Rio de Janeiro...
As intervenções inspiradas de Tykanori, Roberto Gouvéia, Paulo Delgado (autores da lei estadual e nacional de substituição dos manicômios) Geraldo Peixoto e Geraldo Francisco (representantes dos familiares e dos usuários da reforma psiquiátrica) foram entremeadas pelas falas de pessoas que estiveram trancafiadas nas celas do Anchieta e passaram a viver como cidadãos nos oito anos de governo petista. Entre uma fala e outra eram lidas as declarações de apoios de Franca Basaglia, Franco Rotelli, diretor dos serviços sanitários de Triste, de Ana Pitta, coordenadora de saúde mental do Ministério da Saúde e tantos outros.
Não há nada mais revolucionário que a leveza, disse Telma e quando soltou a primeira lágrima era a última a chorar. Lembrou aqueles dias memoráveis da Intervenção, tocou na ferida do ressentimento e traçou um rumo para cura da neurose esquerdista e a reconquista da cidade.
E quando aquela recinto alcançava seu máximo fervor, Lula disse: se vocês tivessem realizado o ato de loucura de se unir não teriam perdido a eleição.
Mas aquele ato era de loucura, inaugurava uma nova era. Ou talvez simplesmente a humilde contribuição dos companheiros de Santos para reinventar a política.
 
Antonio Lancetti . Membro do Diretório Municipal do PT de Santos