TRÊS TEXTOS SOBRE A PRÁTICA EM GRUPO OPERATIVO NO SERVIÇO DE HEMODIÁLISE DO HOSPITAL GERAL DE FORTALEZA


Organizador
Danúzio Carneiro

Fortaleza, Outubro de 2001

 


Sumário

Apresentação
1o - Projeto de Grupo Operativo com Familiares e Pacientes Renais
Crônicos Atendidos no Serviço de Hemodiálise do HGF
2o - Introdução ao Modelo Teórico do Grupo Operativo
3o - Experiência de Grupo Operativo com Pacientes e Familiares do
Serviço de Hemodiálise do Hospital Geral de Fortaleza
O Organizador


Apresentação
Apresento três textos sobre a experiência de Grupo Operativo no Serviço de Hemodiálise do Hospital Geral de Fortaleza HGF. O primeiro é o projeto do grupo, que foi elaborado por uma equipe multidisciplinar coordenada por mim, como supervisor, e composto dos seguintes profissionais: (1) Ana Maria Filizola, assistente social; (2) Antônio Augusto Guimarães, médico-nefrologista; (3) Suely Freitas, enfermeira; (4) Jane Eyre Azevedo, psicóloga. Essa proposta, cuja aplicabilidade será analisada no terceiro item desta coletânea, encontra-se em execução desde janeiro de 1998. O segundo texto contém uma síntese sobre os fundamentos da teoria e da técnica do grupo operativo. Esse trabalho, que é o modelo utilizado como guia teórico para analisar o referido projeto, foi utilizado no curso de introdução à teoria e técnica do grupo operativo desenvolvido no XVII Congresso Brasileiro de Psiquiatria (Fortaleza, outubro de 1999, Anais). No terceiro texto, que foi elaborado seguindo o projeto e o modelo teórico acima mencionados, estão analisados os dados obtidos ao longo dos mais de três anos da experiência grupal. Esse trabalho foi escrito por mim, levando em consideração diversas contribuições da equipe que elaborou e que continua desenvolvendo o projeto de grupo operativo no Serviço de Hemodiálise do HGF.
Danúzio Carneiro


1o Texto - Projeto de Grupo Operativo com Familiares e Pacientes Renais Crônicos Atendidos no Serviço de Hemodiálise do HGF


1. Introdução
Um Grupo Operativo (GO) é definido como um conjunto de pessoas que têm um objetivo comum, objetivo esse que tentam abordar trabalhando em equipe. Um GO pode se reunir para realizar múltiplas tarefas: terapêuticas; aprendizagens; produtividades etc
1. Identificação
GO será direcionado para os familiares e pacientes, de ambos os sexos, portadores de insuficiência renal crônica que estejam em atendimento no programa de hemodiálise do HGF.
1. Objetivo Geral
Oportunizar aos pacientes um espaço para informação, orientação e reflexão sobre as implicações da insuficiência renal e das conseqüências para as suas vidas.
1. Objetivos Específicos
Favorecer ao grupo expor seus questionamentos e dúvidas;
Transmitir informações sobre a doença e os métodos terapêuticos;
Estimular a mudança de hábitos que favoreçam a melhoria de vida do paciente;
Incentivar a participação dos familiares no tratamento do seu paciente;
Conscientizar ao paciente sobre as vantagens de seguir as instruções médicas;
Sensibilizar para o transplante renal;
Estimular a integração grupal, favorecendo a integração social do paciente.
5. Estrutura
Estruturalmente, o grupo será uma unidade com três dimensões: a primeira engloba todos os componentes, e é o GO formado pelos pacientes com insuficiência renal, seus familiares e uma equipe técnica multidisciplinar; a segunda inclui somente a equipe técnica; e na terceira participam apenas os pacientes e os familiares.
A equipe denomina-se de operativa, pois, através de uma ação interdisciplinar e planificada, coordena as tarefas do GO. Neste momento do projeto, a operatividade da equipe se dará através de três papéis: (1) Supervisor, exercida por Francisco Danúzio de Macêdo Carneiro, médico-psiquiatra; (2) Coordenador, exercida por Ana Maria Filizola, assistente social; (3) Orientadores de tarefas especiais, exercidas pelos seguintes especialistas com respectivas áreas de orientação: Augusto Guimarães, médico, orientador em nefrologia; Jane Eyre Azevedo, psicóloga, orientadora em psicologia; Suely Freitas, enfermeira, orientadora em enfermagem.
6. Funcionamento
As reuniões do GO serão realizadas mensalmente. Dia: última quinta-feira de cada mês. Horário: 10:00 às 11:00 horas. Local: sala de aula do setor de Raio X.
As reuniões da equipe operativa serão trimestrais. Preferencialmente no mês de dezembro (para avaliação e planejamento anual); e nos meses de março, junho e setembro.
A previsão é de uma reunião semestral com a participação de somente pacientes e familiares.
7. Metodologia
Por ser a planificação inerente ao método, a coordenação terá uma atuação explicitamente diretiva, e operacionalizará diversos tipos de tarefas:
Encontros para estabelecimento de ajuda interpessoal.
Seminários e exposições para transmissão de informações relevantes à hemodiálise.
Oficinas para aprendizagem de alternativas (alimentação, por exemplo) que facilitem a convivência com o problema etc.
Jogos dramáticos para, através de uma convivência social alegre e afetiva, incrementar a capacidade do paciente para administrar sua problemática.
8. Conclusão
As atividades em Grupo se inserem na perspectiva de um vida saudável para o hemodialisado, permitindo-lhe administrar de maneira espontânea e criativa a sua patologia.



2o Texto - Introdução ao Modelo Teórico do Grupo Operativoð


Um grupo é operativo quando se reúne para realizar uma tarefa explicitamente definida por todos os seus componentes.
Essa idéia fez com que, na década de 60, o psiquiatra e psicanalista argentino Enrique Pichon-Rivière estruturasse uma teoria e desenvolvesse uma técnica para Grupos Operativos. Essa técnica, que inicialmente foi testada no campo da psiquiatria, mostrou-se bastante fértil em suas possibilidades de aplicação, e hoje é utilizada como modelo para estruturação e coordenação de diversos tipos de grupos de tarefa - terapêutica, familiar, pedagógica, gerencial, lúdica etc.
Resumidamente, são duas as características básicas de um GO: planificação e interdisciplinaridade.
A planificação significa que o grupo funciona explicitamente centrado numa tarefa planejada, cuja realização constitui a sua razão de ser. De acordo com a lógica pichoniana, na operatividade planificada deve-se considerar três parâmetros:
1. Os níveis da tarefa. A realização de uma tarefa comporta dois níveis: explícito e implícito. (1o) O nível explícito está representado pelo trabalho produtivo (como resultante e resultado da própria planificação) cuja realização constitui a razão de ser do grupo - por exemplo, produção material, aprendizagem, cura, lazer etc. (2o) O nível implícito consiste na totalidade das operações mentais que os membros do grupo, conjuntamente, devem realizar para constituir, manter e desenvolver a sua grupalidade em torno da tarefa explícita.
2. Os momentos dinâmicos do desenvolvimento grupal. Um grupo em tarefa desenvolve-se em três momentos: pré-tarefa, tarefa e projeto. (1o) Na pré-tarefa se evidenciam condutas (ansiedades) indicativas de resistências às mudanças. (2o) Na tarefa, o grupo, ao mesmo tempo que elabora essas ansiedades, faz a abordagem planificada do objeto de conhecimento, ou seja, realiza a produção grupal. (3o) O projeto surge assim como inerente à tarefa. Conscientemente, dá-se quando todos os membros do grupo têm conhecimento de que pertencem a uma grupalidade específica, com objetivos também específicos. O projeto se concretiza na elaboração, geralmente por escrito, de um plano de trabalho.
3. Os fenômenos que articulam os níveis implícito e explícito da tarefa grupal. Esses fenômenos manifestam-se como modelos de conduta, e servem para avaliar os processos de interação e integração grupal. Eles, que foram sistematizados por Pichon num escala de avaliação denominada de Esquema do Cone Invertido, são de sete tipos: (1o) Identificação. Processo em que a individualidade se identifica, mas ainda não está integrado à Dinâmica Grupal; (2o) Pertença. Conseqüente da identificação, implica na afiliação, com consciência de pertencimento, do indivíduo ao grupo; (3o) Comunicação. Significa reciprocidade e troca de innformações; (4o) Cooperação. Consiste na contribuição, ainda que silenciosa, para com a tarefa grupal. É estabelecida sobre papéis diferenciados, e é o que torna manifesto o caracter interdisciplinar do Grupo Operativo; (5o) Pertinência. Manifesta-se na concentração do grupo na tarefa prescrita. Avalia-se a qualidade da pertinência através da produtividade grupal; (6o) Aprendizagem. Síntese instrumental conseguida pelo grupo. É avaliada pela adaptação ativa à realidade, pela resolução das ansiedades, e pela criatividade e capacidade de elaboração de projetos grupais; (7o) Tele. Termo elaborado por Jacob Levy Moreno em sua teoria sociométrica, significa a força que permite que o grupo, desde os primórdios da identificação e da pertença, continue interagindo e integrado em torno da tarefa. Desse modo, o tele seria, ao mesmo tempo, uma síntese e também o "ponto culminante" da eficiência em todos os processos anteriormente avaliados.
A Interdisciplinaridade de um GO se efetiva na formação de grupos heterogêneos, nos quais cada membro traz para a grupalidade o seu conjunto de conhecimentos, experiências e afetos, havendo assim uma diferenciação de papéis com enriquecimento da tarefa grupal.
Assim como acontece com os níveis da tarefa, esses papéis também podem ser classificados em duas categorias: informais e formais.
1. Os papéis informais surgem, espontaneamente, no cotidiano das atividades planejadas. Isto é, tratam-se de papéis relacionados aos chamados fatores humanos da tarefa. Pichon-Rivière observou no cotidiano das atividades grupais a emergência de quatro modalidades de papéis: líder, porta-voz, bode expiatório, sabotador. (1o) O líder é aquele indivíduo que no acontecer grupal se faz depositário dos aspectos positivos, tornando-se uma espécie de direcionador das diversas atividades desenvolvidas pelo grupo; (2o) O porta-voz é o membro que, em um dado momento, denuncia as fantasias, as ansiedades e as necessidades de autonomia e totalidade do grupo. Nele, se conjugam o que Pichon-Rivière chamou de verticalidade e horizontalidade grupal. Entendendo-se por verticalidade aquilo que se refere à história pessoal do sujeito que emerge como porta-voz, e por horizontalidade o processo atual que acontece no aqui-agora da totalidade dos membros de seu grupo; (3o) O bode expiatório, ao contrário do líder, se faz depositário dos aspectos negativos e aterrorizantes da tarefa ou do grupo. Nessas situações, aparecem os mecanismos de segregação que fazem com que este membro seja isolado das atividades em andamento; (4) O sabotador é um representante das forças (geralmente externas, mas também internas) que se opõem à tarefa grupal.
Em termos pragmáticos, o funcionamento de um GO é considerado ótimo quando os líderes são valorizados, o porta-voz é escutado, o surgimento de bode-expiatório é evitado, e o sabotador é denunciado através de mecanismos como interpretação e/ou assinalamento da sua ação de sabotagem.
2. Quanto aos papéis formalmente estabelecidos, ou seja, aqueles que o grupo formaliza durante o planejamento de suas tarefas, a Escola de Psicologia Social fundada por Pichon-Rivière define duas modalidades: coordenador e observador da dinâmica grupal. (1o) O coordenador tem como função refletir com o grupo sobre a relação que os seus integrantes estabelecem entre si e com a tarefa prescrita. Co-pensar e co-trabalhar lhe dá condições de estar atento ao esquema referencial estruturado no momento, permitindo-lhe, assim, regular um nível ótimo da ansiedade grupal e, em conseqüência, facilita o posicionamento e a decisão de todos; (2o) O observador é geralmente não participativo, e sua função consiste em recolher todo material verbal e não verbal expresso no grupo, com o objetivo de 'realimentar' o coordenador facilitando a utilização das técnicas de condução.
Além desses papéis formais, a plasticidade da técnica do GO permite que, dependendo de necessidades circunstanciais, outras funções sejam formalizadas - supervisor, orientador de atividades especializadas etc.
Para encerrar, deve-se estar atento ao que diz o também psicanalista argentino José Bleger: "Cada grupo escreve sua própria história, e deve ser respeitado em suas características particulares". Desse modo, o esquema acima apresentado seria mais um modelo esclarecedor do que um instrumento, uma "receita" para condução de um Grupo Operativo.



3o Texto - Experiência de Grupo Operativo com Pacientes e Familiares do Serviço de Hemodiálise do Hospital Geral de Fortalezað


1. Introdução
A idéia de se implantar um trabalho de Grupo Operativo no Serviço de Hemodiálise do Hospital Geral de Fortaleza HGF surgiu, em janeiro de 1998, a partir de três fatores: (1) Uma constatação relativa à prática no cotidiano clínico do serviço; (2) Um postulado teórico; (3) Um projeto de trabalho.
A constatação é a de que a terapêutica hemodialítica envolve uma complexa equação cujos principais termos são: um paciente sofrendo de uma doença grave e crônica, a insuficiência renal; os profissionais; a máquina. Essa problemática exige, para sua melhor solução, uma ação terapêutica global que considere os aspectos biopsicossociais dos atores humanos, mais especificamente dos pacientes, nela envolvidos.
O postulado teórico está referido à psiconefrologia - um pensamento que se desenvolve desde a década de setenta, e que apregoa que deve-se evitar, ao máximo, que interferências psicossociais decorrentes do tratamento hemodialítico (e da terapêutica nefrológica em geral) impeçam o pleno gozo de uma vida saudável pelo paciente renal crônico.
Completando, o projeto de trabalho que pode atender a necessidade dessa intervenção global (biopsicossocial) teria que ser estruturalmente multiprofissional, e funcionalmente interdisciplinar. Daí, a proposta do Grupo Operativo.
1. O GO como um modelo para trabalhos com pacientes crônicos do tipo hemodialisado
Um grupo é operativo quando se reúne para realizar uma tarefa explicitamente definida por todos os seus componentes. Essa idéia fez com que, na década de 60, o psiquiatra e psicanalista argentino Enrique Pichon-Rivière (Suíça, 1907. Argentina, 1977) estruturasse uma teoria e desenvolvesse uma técnica para grupos operativos. Essa técnica, que inicialmente foi aplicada no campo da psiquiatria, mostrou-se bastante fértil em suas possibilidades de aplicações, e hoje é utilizada na coordenação de grupos em diversas áreas de trabalho: terapêutica, pedagógica, organizacional etc.
Entre as aplicações terapêuticas, além da clínica psiquiátrica, as experiências já se multiplicam por diversas outras clínicas médicas: nefrologia, endocrinologia, oncologia etc. Na maioria dessas experiências, o público alvo são pacientes portadores de doenças crônicas, debilitantes, tais como os que atendemos no nosso Serviço de Hemodiálise.
A teoria da técnica do GO é algo complexa, pois envolve postulados de múltiplas escolas: tanto da psiquiatria, enquanto especialidade médica fundamentada na psicopatologia, como da psicologia, enquanto ciência da "alma" e da normalidade comportamental do ser humano. Em relação a isso, deve-se apenas dizer que o esquema referencial teórico de Pichon-Rivière inclui os conhecimentos da Psicanálise de Sigmund Freud (Austria, 1856. Inglaterra, 1939), da Gestaltpsychologie de Kurt Lewin (Alemanha, 1890. EUA, 1947), e da Sociometria de Jacob Levy Moreno (Romenia, 1892. EUA, 1974). Todos esses conhecimentos são sintetizados, e apresentados conforme uma lógica pertinente à concepção dialética de Jean Paul Sartre (França, 1905-1980) para o desenvolvimento grupal.
Contudo, pode-se resumir todos os postulados teóricos dizendo-se que as características básicas de um GO são a planificação e a interdisciplinaridade. Essas duas características serão, a seguir, comentadas e enriquecidas por conceitos, dados históricos e elementos da prática cotidiana no nosso grupo.
2.1. A planificação de um GO
A planificação, no sentido dado por Pichon-Rivière, significa que o grupo funciona explicitamente centrado numa tarefa planejada, cuja realização constitui a sua razão de ser.
No nosso grupo, a planificação foi materializada num projeto de trabalho cuja discussão com aprovação e aceitação de seus termos, constituiu-se na primeira tarefa grupal - essa tarefa foi desenvolvida numa reunião realizada em fevereiro de 1998 contando com a participação de um grupo composto por seis técnicos e oito pacientes com familiares.
O projeto aprovado foi elaborado a partir de sugestões dos membros da equipe técnica, e seu modelo foi copiado de outros projetos de GO com pacientes crônicos. O arcabouço desse modelo é formado pelos seguintes itens: (1) Introdução; (2) Identificação; (3) Objetivo Geral; (4) Objetivos Específicos; (5) Estrutura; (6) Funcionamento.
A introdução consta de um sumário teórico sobre a teoria e a técnica do GO. Na identificação estão os termos que dão referência institucional ao projeto - ou seja, um GO formado por uma equipe técnica de coordenação, e por um conjunto de familiares e pacientes portadores de insuficiência renal crônica. A equipe será composta com os seguintes técnicos do hospital: um médico nefrologista, um médico psiquiatra, uma enfermeira, uma assistente social, uma psicóloga, uma nutricionista. Foram convidados todos os familiares e pacientes que estão em atendimento no programa de hemodiálise do HGF. As reuniões acontecerão sempre na última quinta-feira de cada mês, entre 10:00 e 11:30 horas, na sala de reuniões do Setor de RX do hospital.
Quanto aos outros quatro itens do projeto, quais sejam: objetivo geral, objetivos específicos, estrutura e funcionamento, vamos apresentá-los como comentários práticos ao delineamento feito por Pichon-Rivière da teoria do GO.
Isto é, comentaremos com exemplos da nossa prática, os três parâmetros utilizados para se entender o traçado da planificação num GO: (1) Os níveis da tarefa; (2) Os momentos dinâmicos do desenvolvimento grupal; (3) Os fenômenos usados como critérios de avaliação do desenvolvimento grupal.
2.1.1. Os níveis da tarefa
A realização de uma tarefa num GO comporta dois níveis: explícito e implícito. (1o) O nível explícito está representado pelo trabalho produtivo (como resultante e resultado da própria planificação) cuja realização constitui a razão de ser do grupo - por exemplo, produção material, aprendizagem, cura, lazer etc. (2o) O nível implícito consiste na totalidade das operações mentais que os membros do grupo, conjuntamente, devem realizar para constituir, manter e desenvolver a sua grupalidade em torno da tarefa explícita.
No nosso caso, o nível explícito refere-se aos objetivos gerais e específicos definidos para serem alcançados. O objetivo geral seria o de melhor preparar os pacientes do serviço de hemodiálise para enfrentarem as dificuldades que, relativas ao campo psico-social, são inerentes ao tratamento hemodialítico, contribuindo assim para um bom êxito da terapia nefrológica global.
Quanto aos objetivos específicos, esses seriam: (1o) Favorecer ao grupo expor seus questionamentos e dúvidas; (2o) Transmitir informações sobre a doença e os métodos terapêuticos; (3o) Estimular a mudança de hábitos que favoreçam a melhoria de vida do paciente; (4o) Incentivar a participação dos familiares no tratamento do seu paciente; (5o) Sensibilizar para o transplante renal.
Para atingir os seus objetivos, o grupo realizaria em suas reuniões regulares tarefas do tipo: exposições didáticas, depoimentos e debates, oficinas para treinamento de habilidades, jogos dramáticos, atividades festivas e religiosas.
Em relação ao nível implícito, há um postulado bastante citado pelos teóricos do GO: "o GO tem propósitos, problemas, recursos e conflitos que devem ser estudados e atendidos pelo grupo mesmo, a medida que vão aparecendo". Ou seja, cada grupo trabalha com características específicas e engendra sua própria história. Mesmo considerando esse postulado, iniciamos os trabalhos sabendo que alguns fenômenos, que ocorrem implicitamente, são comuns a toda grupalidade. Também sabíamos que eles conferem eficiência ao desenvolvimento da tarefa explícita. Entre esses fenômenos, citamos:
O grupo funciona como continente para a verbalização e resolução de conflitos, associados ou não com a doença.
O diagnóstico homogeneiza o grupo de paciente e familiares. Isso permite a emergência de mecanismos do tipo "solidariedade na desgraça" - compreendido como um mecanismo de identificação projetiva que facilita a empatia, que provoca intimidades, e que incrementa a troca de experiências e da aprendizagem.
Também com isso ocorre uma rápida percepção de que o grupo é também uma fonte de conhecimentos práticos a serem explorados. Daí, o aconselhamento e a ajuda mútua logo se estabelecerem entre os participantes.
A presença, e a interação com a equipe de técnica de coordenação é, por si mesma, um fator efetivo no alívio da ansiedade pela doença.
O estabelecimento de um clima de confiança, com postura participativa e democrática, certamente contribui para o aperfeiçoamento humano, tornando os pacientes mais ativos e integrados em seu contexto psico-social.
Visando a obtenção de dados mais consistentes sobre o desenvolvimento do grupo em torno dos seus objetivos gerais e específicos, realizamos, na vigésima primeira reunião do GO ocorrida em setembro de 1999, uma pesquisa entre seis pacientes e quatro familiares.
Essa pesquisa, que será comentada em dois momentos deste artigo: neste item, e no item em que forem feitos comentários sobre os fenômenos usados como critérios para avaliação do desenvolvimento de um GO, constava de três tipos de perguntas - dados de identificação e tempo de participação no GO; perguntas com respostas do tipo sim/não/não sei; pergunta para se obter uma apreciação subjetiva ("sumaríssima") sobre as reuniões do GO.
Na identificação dos pacientes consta que dos seis componentes, quatro são do sexo feminino e dois são masculino. A idade média dos participantes é de quarenta anos. Em termos de escolaridade, um é analfabeto, quatro têm alfabetização funcional incompleta (isto é, de acordo com o IBGE não completaram as quatro primeiras séries do primeiro grau), e um está no segundo grau. Profissionalmente, dois são estudantes, dois se dedicam aos trabalhos domésticos, um trabalha como zelador e outro como cozinheiro. Em média, eles fazem diálise há cerca de quatro anos, e já participaram de 18 reuniões do GO.
Na identificação dos familiares, houve diversidade quanto ao grau de parentesco, ou seja: um pai, uma mãe, uma filha e uma esposa. A idade média é de 42 anos. Três têm alfabetização funcional completa (completaram as quatro primeiras séries do primeiro grau) e um tem o segundo grau. Profissionalmente um é professor, os demais se dedicam aos trabalhos domésticos. Em média, já participaram de 14 reuniões do GO.
Os questionários aplicados entre pacientes e familiares têm uma estrutura semelhante, e todos responderam com um "Sim" às cinco perguntas formuladas, que foram as seguintes: (1a) As tarefas do GO têm ajudado você a entender a necessidade da hemodiálise? (2a) Têm sido utilizadas no seu dia-a-dia, como uma pessoa (ou familiar de um paciente) que necessita de hemodiálise? (3a) Têm colaborado para aumentar sua aproximação com os profissionais do serviço de hemodiálise? (4a) Têm auxiliado para uma maior integração e uma melhor comunicação com os companheiros de hemodiálise? (5a) Têm dado oportunidade para você colocar e esclarecer suas dúvidas sobre o tratamento?
No tocante a apreciação subjetiva das atividades, essa foi bastante positiva. Nessa rubrica foi feita a seguinte solicitação: através de uma palavra, defina como você se sente quando participa das reuniões do GO. Nas respostas verifica-se que, dos dez que responderam, sete disseram que se sentem "muito bem", e os demais disseram que se sentem "contente", "feliz", "a vontade".
2. Momentos dinâmicos do desenvolvimento grupal
Um GO desenvolve-se em três momentos: pré-tarefa, tarefa e projeto. (1o) Na pré-tarefa se evidenciam condutas (ansiedades) indicativas de resistências às mudanças. Essas ansiedades, quando não convenientemente superadas, impedem o desenvolvimento da tarefa e inviabiliza a própria existência grupal; (2o) Na tarefa, o grupo, ao mesmo tempo que elabora e supera essas ansiedades, faz a abordagem planificada do objeto de conhecimento, ou seja, realiza o produto grupal. (3o) O projeto surge assim como inerente à tarefa. Conscientemente, dá-se quando todos os membros do grupo têm conhecimento de que pertencem a uma grupalidade específica, com objetivos também específicos. O projeto se concretiza na elaboração, geralmente por escrito, de um plano de trabalho.
Ha um notável detalhe no funcionamento de nosso GO: ele se desdobra em três conjuntos. Quais sejam: o grupo globalmente considerado - esse é formado por um conjunto de técnicos coordenadores e um conjunto de pacientes e familiares coordenados; o subgrupo de técnicos; o subgrupo de pacientes e familiares.
No planejamento anual de 1999, definimos um cronograma de atividades diferenciadas para cada um desses conjuntos: para o grupo global, as reuniões continuariam a ser realizadas conforme o projeto original, ou seja, nas últimas quintas feiras de cada mês. Para o grupo de coordenação, seriam realizadas reuniões (a título de supervisão) a cada trimestre. Para o grupo de familiares e pacientes ficou definido a realização de reuniões semestrais.
Ao tempo que escrevemos este artigo, dezembro de 1999, verificamos que todas as reuniões globais e de supervisão foram realizadas neste ano. Contudo, mesmo tendo havido, por parte de alguns personagens, uma tentativa nesse sentido, o grupo de pacientes e familiares ainda não conseguiu se articular para realizar uma tarefa autonomamente.
Desse modo, falando das etapas do desenvolvimento grupal, pode-se, empiricamente, afirmar que o GO globalmente considerado está plenamente na fase de tarefa. O subgrupo de técnicos, quando agrega ao desenvolvimento de sua tarefa de coordenação o momento de supervisão, deixa implícita a idéia de uma etapa de projeto para autonomia grupal. Esse projeto, por sua vez, busca se explicitar através da multiplicação com publicação de sua experiência. O subgrupo de pacientes e familiares ainda não conseguiu se reunir para realizar tarefas específicas. Estando porisso, do ponto de vista técnico, na etapa da pré-tarefa.
Temos uma explicação para esse último fato. De acordo com a teoria de Pichon-Rivière, no momento da pré-tarefa há, muitas vezes de modo inconsciente para o próprio grupo, um predomínio de ansiedades que se manifestam como condutas significativas de resistência à mudança. Essas ansiedades podem ser consideradas como dois medos básicos: medo da perda de um status quo, ou seja, medo da perda de um equilíbrio já obtido anteriormente; medo de enfrentar uma nova situação em que o sujeito grupal não conhece e nem se sente instrumentado.
A partir dessa teoria, pode-se afirmar que os pacientes e familiares não se articulam com autonomia pelo duplo medo: primeiro, de perda de um status quo. Esse é formado, formalizado e fossilizado através de uma prática assistencial baseada num modelo médico, cujo aparato institucional não lhes permitem participar de maneira ativa e autônoma do processo de seu tratamento, daí a sua passividade e dependência. Segundo, o medo de não se sentirem, do ponto de vista técnico, suficientemente instrumentados para dar conta de sua tarefa. Quanto a isso, de antemão informamos que pretendemos incluir no planejamento do próximo período (ano 2000) reuniões para treinar e aperfeiçoar habilidades na organização de atividades de GO.
3. Fenômenos usados como critérios de avaliação do desenvolvimento grupal
Pichon-Rivière observou na dinâmica grupal alguns fenômenos recorrentes que, por manifestarem-se como modelos de conduta da grupalidade, poderiam servir como critério de avaliação dos processos de interação e integração grupal. Ele também observou que esses fenômenos articulavam o implícito ao explícito da tarefa, e propôs que fossem sistematizados numa escala de avaliação que denominou de Esquema do Cone Invertido.
São sete os tipos de fenômenos sistematizados: (1o) Identificação. Processo em que a individualidade se identifica, mas ainda não está integrado à dinâmica grupal; (2o) Pertença. Conseqüente da identificação, implica na afiliação, com consciência de pertencimento, do indivíduo ao grupo; (3o) Comunicação. Significa reciprocidade e troca de informações; (4o) Cooperação. Consiste na contribuição, ainda que silenciosa, para com a tarefa grupal. É estabelecida sobre papéis diferenciados, e é o que torna manifesto o carácter interdisciplinar do Grupo Operativo; (5o) Pertinência. Manifesta-se na concentração do grupo na tarefa prescrita. Avalia-se a qualidade da pertinência através da especialização na produtividade grupal. Quanto mais especializado for um grupo em sua tarefa, mais pertinente será; (6o) Aprendizagem. Síntese instrumental conseguida pelo grupo. É avaliada pela adaptação ativa à realidade, pela resolução das ansiedades, e pela criatividade e capacidade de elaboração de projetos grupais; (7o) Tele. Termo elaborado por Moreno em sua teoria sociométrica, significa a força que permite que o grupo, desde os primórdios da identificação e da pertença, continue interagindo e integrado em torno da tarefa. Desse modo, o tele seria, ao mesmo tempo, uma síntese e também o "ponto culminante" da eficiência em todos os processos anteriormente avaliados.
Esses fenômenos foram igualmente observados nas atividades do nosso GO. Para comentá-los, utilizaremos os dados da pesquisa que já apresentamos no item sobre os níveis implícito e explícito da tarefa. Também, para complementar esses comentários, apresentaremos algumas indagações que os pacientes e familiares formularam (alguns por escrito) durante um debate sobre transplante renal acontecido com o grupo.
As cinco perguntas da supramencionada pesquisa também podem ser diretamente utilizadas para avaliação de quatro dos fenômenos básicos, quais sejam: pertença, comunicação, colaboração, aprendizagem. Desse modo, como todas as perguntas foram respondidas com um "sim" por todos os entrevistados, de antemão podemos afirmar que, conforme esses quatro parâmetros, é significativamente positivo o desenvolvimento do nosso GO.
Especificamente sobre a questão da pertença (esse, enquanto sentimento de pertencer, de estar integrado, inclui o fenômeno da identificação), da comunicação, e da colaboração estão relacionadas duas perguntas: as atividades do GO têm colaborado para aumentar sua aproximação com os profissionais do serviço de hemodiálise? Elas têm auxiliado para uma maior integração e uma melhor comunicação com os companheiros de hemodiálise?
Com a questão da aprendizagem se relacionam as outras três perguntas: as tarefas do GO têm ajudado você a entender a necessidade da hemodiálise? Elas têm sido utilizadas no seu dia-a-dia, como uma pessoa (ou familiar de um paciente) que necessita de hemodiálise? Elas têm dado oportunidade para você colocar e esclarecer suas dúvidas sobre o tratamento?
Ainda em relação à aprendizagem, sem que fosse explicitamente solicitado dois dos respondentes da pesquisa justificaram com o fato de estarem aprendendo o por que estavam contentes e se sentido bem com o GO. Eles escreveram: "Sinto-me contente, por que aprendi coisas úteis", "Sinto-me bem, aprendo muitas coisas".
Quanto aos outros dois fenômenos restantes - pertinência e tele, serão comentados do seguinte modo: como avaliação da pertinência, serão explicadas as indagações acima mencionadas. O tele será vinculado à apreciação subjetiva contida na pesquisa, a qual também já foi apresentada anteriormente.
As indagações foram feitas durante uma reunião que tinha como tarefa a exposição sobre os procedimentos adotados pelo Sistema Único de Saúde SUS-Fortaleza para viabilizar um transplante renal. Foram formuladas mais de vinte perguntas, dessas destacamos as seguintes: fazer transplante é seguro? O que é preciso para se realizar um transplante? Por que o organismo não aceita o orgão transplantado? A maioria dos transplantes são bem sucedidos? Se o rim for rejeitado, o que acontece com o paciente? Quanto tempo uma pessoa fica com saúde após um transplante? É possível parar de tomar os remédios após o transplante? Uma pessoa com seu próprio rim pode comer todo tipo de comida, por que a mesma coisa não acontece com alguém com um rim transplantado?
Observar que as indagações, em si, já são apropriadas, portanto são pertinentes às atividades do grupo. Contudo, chama-nos ainda a atenção a sofisticação de sua lógica, isso exigiu, por parte do orientador nefrológico, conhecimentos altamente especializados para respondê-las de maneira conveniente. Assim, podemos avaliar como alto o grau de pertinência em nosso GO.
Num grupo, o fenômeno tele, como fator matemático, pode ser objetivamente captado através de um Teste Sociométrico. No entanto, sua íntima relação com a afetividade permite que, nesse mesmo grupo, possa-se avaliar o seu nível por analogia à qualidade das manifestações afetivas grupal. Dessa maneira, pode-se afirmar que uma afetividade positiva indica (numa avaliação subjetiva) um alto nível de desenvolvimento do tele.
Em suma, pelas respostas da apreciação subjetiva contida na pesquisa - "muito bem", "contente", "feliz", "a vontade" - dá para concluir que no nosso GO o tele é alto, e que isso implica numa boa integração grupal.
2.2. A interdisciplinaridade no GO
A Interdisciplinaridade de um GO se efetiva na formação de grupos heterogêneos, nos quais cada membro traz para a grupalidade o seu conjunto de conhecimentos, experiências e afetos, havendo assim uma diferenciação de papéis com enriquecimento da tarefa grupal.
Pode-se afirmar que o nosso GO é globalmente heterogêneo, pois engloba as três principais categorias de papéis sociais que estão presentes numa qualquer instituição médica, quais sejam: técnicos, pacientes e familiares. Ademais, entre cada uma dessas categorias observa-se que há bastante heterogeneidade - mesmo entre os pacientes, onde a doença homogeneiza o conjunto, verifica-se que há diversidade com a presença de sexo masculino e feminino, de idades diferenciadas (adolescente, adultos e idosos), e de amplo nível educacional.
No entanto, é no conjunto de técnicos onde se efetiva com máxima intensidade a heterogeneidade. Como é isso o que permite um máximo de interdisciplinaridade em nosso espaço grupal, então, este capítulo será dedicado especificamente à construção da interdisciplinaridade na equipe técnica.
Antes de continuar comentando com exemplos da prática o delineamento teórico feito por Pichon-Rivière, achamos necessário apresentar algumas proposições que fazem da interdisciplinaridade não só uma prática cotidiana, mas uma questão de princípio para o nosso GO. Essas proposições foram inicialmente apresentadas num seminário hospitalar onde a pauta das discussões incluía o trabalho de GO com pacientes cronificados, e foram denominadas de "Cinco argumentos que demonstram a necessidade de se implantar um trabalho interdisciplinar no espaço hospitalar". Os argumentos são:
1. Ontológico - "Ontologia: estudo do ser". O hospital deve considerar o ser humano (paciente-cliente) como uma unidade tridimensional: biológica, psicológica e social.
2. Teleológico - "Teleologia: estudo das finalidades". A finalidade do hospital é o restabelecimento da saúde desse ser humano. O termo saúde só pode se referir a essa tridimensionalidade, pois, como define a Organização Mundial de Saúde, ela representa o completo bem estar bio-psico-social humano.
3. Metodológico - Só um instrumento interdisciplinar e, portanto, multidisciplinar, pode dar conta das múltiplas variedades clínicas, e dos vários tipos de processos sociais em que se subdivide o trabalho em saúde.
4. Estético. A diferença (interprofissional) é o que engendra sempre o novo e o inesperado. Daí, a possibilidade de se agregar mais prazer, dando beleza ao trabalho de saúde no meio hospitalar.
5. Ético. A ética, enquanto um modelo de busca para aquilo que os filósofos chamam de meta mais elevada da vida humana, encontra-se atualmente fundamentada no termo consenso. Ou seja, num senso comum obtido através de um acordo entre diferenças: inter-pessoal, inter-funcional, inter-grupal, inter-disciplinar.
Dado esses argumentos, podemos então continuar a falar da teoria e da prática do GO. Assim como acontece com os níveis implícito e explícito da tarefa, os papéis sociais constituintes de um grupo em tarefa, também podem ser classificados em duas categorias: informais e formais.
1. Papéis informais
Os papéis informais surgem espontaneamente no cotidiano das atividades planejadas. Isto é, tratam-se de papéis relacionados aos chamados fatores humanos da tarefa, fatores esses que estão submetidos a forças incontroláveis e/ou inconscientes, portanto, não racionalizada pelos seres humanos que estão envolvidos na tarefa planificada.
Pichon-Rivière observou no cotidiano das atividades em GO a emergência de quatro modalidades desses papéis: líder, porta-voz, bode expiatório, sabotador. (1o) O líder é aquele indivíduo que no acontecer grupal se faz depositário dos aspectos positivos, tornando-se uma espécie de direcionador das diversas atividades desenvolvidas pelo grupo; (2o) O porta-voz é o membro que, em um dado momento, denuncia as fantasias, as ansiedades e as necessidades de autonomia e totalidade do grupo. Nele, se conjugam o que Pichon-Rivière chamou de verticalidade e horizontalidade grupal. Entendendo-se por verticalidade aquilo que se refere à história pessoal do sujeito que emerge como porta-voz, e por horizontalidade o processo atual que acontece no aqui-agora da totalidade dos membros de seu grupo; (3o) O bode expiatório, ao contrário do líder, se faz depositário dos aspectos negativos e aterrorizantes da tarefa ou do grupo. Nessas situações, aparecem os mecanismos de segregação que fazem com que este membro seja isolado das atividades em andamento; (4) O sabotador é um representante das forças (geralmente externas, mas também internas) que se opõem à tarefa grupal.
Teoricamente, o funcionamento de um GO é considerado ótimo quando os líderes são valorizados, o porta-voz é escutado, o surgimento de bode-expiatório é evitado, e o sabotador é denunciado através de mecanismos como interpretação e/ou assinalamento da sua ação de sabotagem.
Na prática do nosso grupo, podemos observar fatos que evidenciam a emergência desses quatro papéis. Dos quatro, somente o porta-voz não será comentado, pois em que pese esse papel ser costumeiramente observado nas atividades, em nenhum momento sua emergência deu-se de maneira que fosse interessante aqui registrar.
Quanto ao líder, praticamos a sua valorização através de um rodízio de coordenação. Isto é, frequentemente programamos atividades para serem coordenadas pelos diversos componentes da equipe. Um exemplo: o orientador em nefrologia já coordenou duas reuniões em que o assunto era transplante renal. A mesma coisa aconteceu com os outros orientadores que já coordenaram atividades específicas de sua área profissional.
Em relação ao bode-expiatório, este é um papel indicativo de intenso conflito grupal. No nosso grupo, isso aconteceu no final de seu primeiro ano de existência, e uma situação análoga ao de bode expiatório se configurou então.
Na reunião de supervisão (e planejamento para o ano de 1999) de dezembro de 1998, houve um "pequeno" atrito entre o supervisor e uma das orientadoras que até então fazia parte da equipe de coordenação. Esse atrito foi desencadeado quando a orientadora, enfaticamente, advertiu ao grupo de que o tempo da reunião "estava esgotado". Em resposta, o supervisor retrucou (também com um tom enfático) que sua advertência era improcedente, uma vez que havia ficado deliberado na reunião de supervisão anterior, na qual ela não estava presente, que o tempo do encontro para planejamento do final de ano seria prolongado. Com isso, instaurou-se um conflito verbal.
Em conseqüência desse conflito, foi desencadeada uma dupla ação: especialmente nos momentos imediatos que se seguiram à reunião, a orientadora adotou uma conduta fenomenologicamente ambivalente. Isto é, hostil em relação ao supervisor, mas cooperativa em relação as atividades do GO. Quanto aos demais componentes da equipe técnica, por sugestão feita pelo próprio supervisor, buscou-se uma ação de moderação, ("dar tempo ao tempo") para que o conflito fosse melhor solucionado. Com isso, num espaço de três meses, pelo menos três reuniões especificas foram realizadas para reflexão e deliberação sobre o ocorrido.
Finalmente, na reunião de supervisão ocorrida em março de 1999, em que, com exceção da referida orientadora que se recusou a comparecer, estavam presentes os demais membros da equipe, a questão foi "fechada" com uma constatação - precedendo problemas relacionados à idiossincrasias de personalidade e de conduta funcional tanto da orientadora como do supervisor, havia algo com maior importância para explicar o conflito no grupo: uma duplicidade de papéis. Essa estava representada no fato de que junto da referida orientadora havia uma outra profissional exercendo a mesma função de sua especialidade no GO. Entre outros detalhes, presumimos que foi isso o que determinou a sua ausência no encontro anterior, não tendo ela comparecido (a mesma coisa já havia ocorrido em oportunidades anteriores) por que supôs que a outra colega de especialidade estaria presente e lhe representando na reunião. Mas isso não aconteceu, e como nenhuma das duas estava presente, ela não tomou conhecimento de todas as deliberações adotadas, daí a desinformação que gerou o "ruído" comunicacional, levando ao conflito grupal.
Dado essa constatação, e considerando o fato de que a orientadora estava se recusando a comparecer às reuniões do GO que foram realizadas para solucionar o conflito, então ficou decidido que ela não mais faria parte da equipe técnica, que então, de um modo conveniente, passou a ter em cada uma das especialidades somente um profissional orientador.
Analisar o papel de sabotador é ainda mais delicado do que analisar o papel de bode expiatório. Ambos implicam em intenso conflito grupal, somente que no caso do sabotador, além dos componentes internos, geralmente o fator conflitual é determinado por forças externas ao grupo. Sendo assim, antes de se analisar o processo desencadeado pela presença de tal função num GO como o nosso, seria necessário fazer uma consistente análise histórica sobre o do por que essas forças externas estariam interessadas em boicotar as atividades do grupo. Isso, entendemos, demandaria um esforço analítico sobre os interesses políticos e econômico-sociais que sempre são os fundamentos determinantes de situações semelhantes.
Consideramos que esse esforço não é pertinente ao conteúdo deste trabalho. Contudo, também não somos ingênuos para imaginar que quando se realiza um trabalho com a pretensão de organização e de planejamento como o do nosso GO, esse não desperte temores (na instituição hospitalar considerada como um todo, ou em partes de seus serviços), receios que desembocam em condutas de ma fé, típicas de boicote às atividades do grupo.
Pelo menos foi isso o que suspeitamos a partir de um incidente menor que ocorreu durante o já citado seminário hospitalar. Nesse seminário, a apresentação do GO foi feita em conjunto pela equipe técnica e por representantes de pacientes e familiares. Durante essa apresentação, por duas vezes, os trabalhos foram interrompidos por uma senhora estranha, com comportamento e vestes características de que estava transtornada mentalmente: ela entra no auditório e, de modo inesperado, dirige-se à mesa de direção (onde estávamos), para, de maneira dramática, pedir ajuda pois estava doente. No primeiro momento, paramos a sessão e a situação foi contornada com a paciente sendo levada, pelo supervisor que estava coordenando a mesa de apresentação, até o setor de atendimento especial do hospital. Mas logo que os trabalhos foram reiniciados, a mesma senhora entra na sala e volta a prejudicar o desenvolvimento da tarefa. Nesse momento, foi solicitado a intervenção de um dos diretores do hospital que estava presente na sessão, e o problema foi solucionado.
Após esse acontecimento, uma dupla pergunta nos deixou curioso - como uma paciente, visivelmente transtornada, consegue chegar, passar por diversos setores do hospital (inclusive portaria), ir à ala de administração hospitalar onde está localizado o auditório, e ai entrar atrapalhando um seminário? Como explicar o fato dessa mesma paciente, após ter sido levada ao setor do hospital que deveria ser o responsável pelas providências em situações semelhantes, ter sido liberada e permitindo que voltasse para o auditório interferindo, mais uma vez, no bom encaminhamento da reunião?
São perguntas que, salvo uma ação de puro acaso, só encontrariam respostas plenamente convincentes se recorremos à lógica do sabotador. Nesse o sabotador seria não a paciente, presumivelmente essa foi apenas "guiada" por alguém (o boicotador) até o recinto para prejudicar (boicotar) a tarefa do GO.
2.2.2. Papéis formalmente constituídos no GO
São aqueles papéis que o grupo formaliza durante o planejamento de suas tarefas. A escola de psicologia social liderada por Pichon-Rivière só define duas modalidades de papéis: coordenador e observador da dinâmica grupal.
O coordenador tem dupla função: aglutinar o grupo e fazê-lo agir, otimamente, em torno da tarefa. O observador geralmente não é participativo. Sua função consiste em recolher todo material verbal e não verbal, com o objetivo de 'realimentar' o coordenador facilitando a utilização das suas técnicas de condução.
Além desses papéis formais, a plasticidade da técnica do GO tem permitido que, dependendo de necessidades circunstanciais, haja modificações e outras funções sejam formalizadas. No nosso GO, não formalizamos o papel de observador, mas formalizamos os papéis de supervisor e orientador de atividades especializadas.
O supervisor trabalha mais diretamente vinculado à equipe técnica. Sua função também é dupla: reflexão e ação. Reflete com o grupo sobre as relações que os seus integrantes estabelecem entre si, e com a tarefa prescrita; e age como um regulador das ansiedades que surgem na realização da tarefa e, em conseqüência, como facilitador do posicionamento e da decisão grupal. Os orientadores de tarefa têm, como a denominação indica, a orientação de trabalhos profissionais específicos. Assim, no nosso grupo, há os orientadores nas áreas de nefrologia, enfermagem, nutrição e psicologia.
2. Conclusão
Nossa conclusão é sumária e, como semelhante à do projeto de trabalho, também é uma mensagem de esperança, isto é, os trabalhos de nosso GO se inserem na perspectivas de uma vida saudável para o hemodialisado, permitindo-lhe administrar com plena espontaneidade e criatividade a sua patologia.

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O Organizador
Francisco Danúzio de Macêdo Carneiro
Médico, formado pela Universidade Federal do Ceará (1975-1981).
Especialização em Psiquiatria pela Residência Médica do Hospital de Saúde Mental de Messejana (1982-1983).
Especialização em Psicodrama pela Federação Brasileira de Psicodrama (1979-1983).
Mestre em Saúde Pública pela Universidade Estadual do Ceará (1994-1997).
Professor da disciplina "Dinâmica Grupal e Relações Humanas", no Curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza (1987-1990).
Professor da disciplina "Grupoterapia", na Residência Médica do Hospital de Saúde Mental de Messejana (1984-1993).
Professor da disciplina "Sociometria", no Curso de Especialização em Psicodrama do Instituto do Homem de Fortaleza (1994-1999).
Médico-Psiquiatra e Supervisor do Grupo Operativo com Pacientes do Serviço de Hemodiálise do Hospital Geral de Fortaleza (1996-1999)
Endereço Comercial: Condomínio Clinics, Rua Coronel Linhares, 1741, Aldeota, CEP 60170-241, sala 304, fone (085) 224.8767, Fortaleza-Ce. E-Mail: danuziomc@secrel.com.br